71% das empresas brasileiras adotam ESG? O que a pesquisa da Amcham mostra e o que ainda falta demonstrar

71% das empresas brasileiras adotam ESG? O que a pesquisa da Amcham mostra e o que ainda falta demonstrar

Sete em cada dez empresas brasileiras já adotam práticas ESG. O número vem da pesquisa Panorama ESG 2024, da Amcham Brasil com a Humanizadas, e circulou bastante na imprensa. Em 2023, o mesmo levantamento registrava 47%. Um salto de 24 pontos percentuais em um ano.

É uma boa notícia? Em parte. Aqui no blog a pergunta é sempre a mesma: o que esse número mede de fato, e o que ele ainda não consegue mostrar? Para quem trabalha com química ambiental, “adotar uma prática” e “reduzir um impacto” são coisas diferentes. A primeira se declara. A segunda se mede.

O que a pesquisa mediu

A pesquisa ouviu 687 respondentes, com margem de erro de 5% e 95% de confiança, segundo o relatório completo. Foi lançada em abril de 2024, no Fórum ESG da Amcham, em São Paulo.

O perfil da amostra importa para ler o resultado:

  • 69% são empresas de médio e grande porte;
  • 57% dos respondentes ocupam alta liderança (conselho, C-level, diretoria);
  • juntas, as empresas somam cerca de 651 mil colaboradores e faturamento estimado de R$ 756 bilhões;
  • há forte concentração de empresas do estado de São Paulo.

Dois pontos merecem atenção. Primeiro, a pesquisa é de percepção: são executivos dizendo em que estágio está a própria empresa. Nenhum dado de emissão, consumo de água ou massa de resíduo foi auditado. Segundo, a amostra não representa o conjunto das empresas brasileiras, que é dominado por micro e pequenos negócios. O “71% das empresas brasileiras” das manchetes é, mais precisamente, 71% das empresas que responderam a uma pesquisa da Amcham.

O que os números mostram

Os 71% somam dois grupos: 45% de “adotantes iniciais” e 26% de “inovadores”, que se veem como referência no tema. Ou seja, a maior parte das empresas está começando. A pesquisa também pergunta o que move essas empresas: 78% citam gerar impacto ambiental e social positivo, e 77% citam fortalecer a reputação no mercado. Os dois motivos aparecem praticamente empatados.

Entre os pilares, o social é prioridade para 72% das empresas, a governança para 68% e o ambiental para 66%. O meio ambiente, que costuma ser a face mais visível do ESG, aparece em último.

Redução de emissões de GEE foi a prática ambiental que mais avançou% das empresas que declaram cada prática · círculo vazio = 2023, cheio = 20242023 → 2024Reciclagem e reuso de produtos46% → 54%Otimização de recursos e menos desperdício45% → 54%Produtos que mitigam problemas ambientais33% → 41%Investimento em inovação sustentável38% → 39%Redução de emissões de GEE11% → 33%Cadeia de valor sustentável30% → 32%Investimento em fontes renováveis30% → 31%Redução de impactos na biodiversidade25% → 27%Compensação de emissões de GEE7% → 21%
Fonte: Amcham e Humanizadas, Panorama ESG 2024 (687 respondentes).

No pilar ambiental, as práticas mais citadas são reciclagem e reuso de produtos e otimização de recursos, ambas com 54%. O maior salto, porém, está nas emissões: a redução de gases de efeito estufa (GEE) passou de 11% para 33% das empresas, e a compensação de emissões, de 7% para 21%. Na indústria, o setor que lidera as práticas ambientais, a reciclagem e o reuso chegam a 69% e a redução de emissões a 49%.

O olhar da química

As duas práticas mais citadas, reciclagem e otimização de recursos, são as mais fáceis de declarar e as mais difíceis de avaliar sem números. “Reciclar” pode significar coisas muito diferentes do ponto de vista material:

  • Reciclagem mecânica, em que o plástico é lavado, moído e reprocessado. A cada ciclo, as cadeias poliméricas se quebram e o material perde propriedades. Muitas vezes vira um produto de menor valor (downcycling).
  • Reciclagem química, que quebra o polímero em monômeros ou em óleos. Recupera qualidade, mas gasta energia e reagentes, e o balanço ambiental depende do processo.
  • Envio para cooperativas ou terceiros, em que a empresa separa o resíduo, mas não sabe o destino final de cada fração.

Na pesquisa, as três situações cabem na mesma resposta “sim”. O que diferencia uma da outra é o balanço de massa: quantas toneladas entraram, quantas saíram como produto, quantas voltaram ao ciclo e quantas foram para aterro ou incineração.

Com as emissões acontece algo parecido. O salto de 11% para 33% em “redução de GEE” é o dado mais interessante da pesquisa, mas reduzir só tem sentido diante de uma linha de base. Isso exige um inventário de emissões (pelo GHG Protocol, por exemplo), com escopos 1, 2 e, idealmente, 3. A pesquisa não informa quantas empresas têm esse inventário. A compensação, que triplicou (de 7% para 21%), também pede cuidado: comprar créditos de carbono não retira nenhuma molécula de CO₂ da chaminé da fábrica. A qualidade do crédito depende de adicionalidade, permanência e verificação, que são variáveis em todo o mercado voluntário.

O que ainda falta demonstrar

A própria pesquisa aponta o ponto fraco. O maior desafio citado pelas empresas é a dificuldade de medir indicadores ESG (40%, contra 38% em 2023). Em seguida vêm a falta de uma cultura forte de ESG (32%) e a falta de metodologia adequada e de recursos financeiros (30% cada).

Os dados de relato confirmam a distância entre adotar e comprovar:

  • só 31% publicam relatório de sustentabilidade anual;
  • 25% têm matriz de materialidade atualizada;
  • 21% têm certificação ou rating ESG;
  • 23% avaliam fornecedores com critérios ESG.

Há ainda o Pacto Global da ONU: 54% das empresas não são signatárias, e só 20% relatam avanços significativos nas metas.

Em outras palavras: cerca de sete em cada dez empresas dizem adotar práticas ESG, mas apenas três em cada dez publicam um relatório em que alguém de fora possa conferir os números. Para a química ambiental, um processo que não se mede não se controla. Ficam as perguntas que a pesquisa não responde:

  • Quanto resíduo essas empresas geram por unidade produzida, e quanto disso volta de fato ao ciclo produtivo?
  • Quantas têm inventário de emissões verificado por terceiros?
  • As reduções declaradas são absolutas ou só de intensidade (por tonelada produzida)?
  • Quanto das “reduções” é, na verdade, compensação?

E depois de 2024?

A edição seguinte, lançada em abril de 2025, mudou de nome para Panorama da Sustentabilidade Corporativa e, segundo a Folha de Pernambuco, passou a focar só na agenda ambiental, deixando de lado governança e práticas sociais. Nela, o percentual de empresas com iniciativas sustentáveis subiu de 71% para 76%, e os adotantes iniciais passaram a ser maioria (52%).

O desafio da medição continuou no centro. Em 2025, 58% dos executivos disseram ser preciso comprovar que a sustentabilidade gera retorno financeiro, e 54% citaram a necessidade de engajar líderes na agenda. Vale lembrar que a amostra caiu de 687 para 401 executivos, e o escopo do questionário mudou. A comparação entre os anos indica tendência, mas não é uma série histórica rigorosa.

Conclusão

O dado de 71% mostra que o tema ESG entrou na agenda das médias e grandes empresas brasileiras, e o salto nas ações sobre emissões é um sinal concreto disso. O que a pesquisa não mostra, e nem se propôs a mostrar, é quanto impacto ambiental foi de fato evitado.

A próxima etapa não é aumentar o percentual de empresas que “adotam” práticas. É aumentar o percentual que mede, publica e submete os números à verificação: toneladas de resíduo, metros cúbicos de água, toneladas de CO₂ equivalente. Enquanto isso não acontecer, ESG continua sendo, em boa parte, uma declaração de intenções. A química só consegue avaliar o que vira dado.

Referências

Imagem de capa: chaminé industrial, foto de USDA NRCS Montana, via Wikimedia Commons (domínio público).


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