De cada € 3 de valor econômico criado no mundo, cerca de € 1 se perde pelo uso linear de materiais. Essa é a conta do Circularity Gap Report 2026, publicado em abril pela Circle Economy com a Deloitte: € 25,4 trilhões por ano (± € 4,7 trilhões), quase 31% do PIB global.
O número é forte e já correu o mundo em manchetes. Como químico, prefiro perguntar do que ele é feito antes de repeti-lo. Neste texto, mostro o que o relatório mede, o que a química ajuda a explicar e o que ainda precisa ser demonstrado.
Por que o PIB não enxerga essa perda
O PIB mede quanta atividade econômica aconteceu, não quanto valor foi preservado. Para essa conta, € 100 gastos na limpeza de um vazamento de petróleo pesam o mesmo que € 100 investidos em educação. Um prédio novo soma; o desgaste do prédio antigo não subtrai.
O Value Gap (lacuna de valor) tenta preencher esse ponto cego. É a estimativa, em euros, do valor evitável que se perde todo ano com materiais desperdiçados, ativos que se deterioram cedo demais e parte dos custos ambientais que o mercado não cobra.
A novidade é de enfoque. Até aqui, a série destacava a Métrica de Circularidade, que na edição anterior ficou em 6,9%: 93,1% dos materiais que entram na economia são virgens. Essa métrica diz quanto material volta. O Value Gap pergunta quanto valor se perde, e as duas respostas não são a mesma coisa.
As cinco vias por onde o valor escapa
A maior parte da perda não está onde a discussão sobre reciclagem costuma olhar. Alimentos e sobras de fábrica somam pouco. O peso real está em bens duráveis descartados cedo e em energia desperdiçada.

Fim de vida é o valor que ainda restava em prédios, veículos e máquinas quando foram aposentados, somado ao custo de tratar o resíduo. Energia é o que se perde da extração ao uso final, como calor, vazamentos e equipamentos ineficientes. Capital fixo é a parcela evitável do desgaste de ativos ainda em uso.
O relatório também organiza a perda pela causa: custos-sombra (€ 7,5 trilhões), obsolescência precoce (€ 6,5 trilhões), má gestão de materiais (€ 6,2 trilhões) e deterioração de ativos (€ 5,2 trilhões). Por etapa, a perda é quase igual na fase de uso (€ 10,1 trilhões) e no pós-uso (€ 10,0 trilhões), à frente da produção (€ 5,3 trilhões).
Dois pontos merecem atenção. O primeiro é que o maior item se resolve mais com durabilidade e reparo do que com coleta seletiva. O segundo é o que aparece em azul no gráfico: custo-sombra é o preço atribuído a danos que o mercado não cobra, como os do carbono. Na energia, ele pesa bem mais do que o valor de mercado perdido.
O que a química explica: reciclar não devolve tudo
O próprio relatório diz que a reciclagem preserva apenas o valor do material, não o do componente nem o do produto. A química mostra por que essa diferença existe e por que ela varia tanto de um material para outro.
O alumínio é o caso favorável. Na natureza, ele está preso ao oxigênio, e romper essa ligação exige eletrólise:
2 Al₂O₃ + 3 C → 4 Al + 3 CO₂
Depois de pronto, o metal não precisa repetir essa etapa. Basta refundi-lo, e o alumínio puro funde a 660 °C. Por isso, segundo o International Aluminium Institute, entidade do próprio setor, a produção primária consumiu 186 GJ por tonelada em 2019, contra 8,3 GJ do reciclado: 95,5% a menos.
Mesmo aqui há limite. Cobre, silício e outros elementos de liga continuam no metal fundido e são difíceis de retirar. Sucata misturada tende a virar liga menos exigente, e parte do valor se perde sem que a tonelagem reciclada mude.
O plástico perde mais. Cada reprocessamento pode quebrar cadeias poliméricas, o que reduz a massa molar e altera propriedades mecânicas. Aditivos e contaminantes também seguem junto. Daí o rebaixamento: a embalagem de hoje pode virar um produto menos exigente amanhã. Acompanhar esse percurso rende uma boa aula sobre reciclagem.
O combustível não tem laço para fechar. Depois de C + O₂ → CO₂, a energia química virou calor e o carbono foi para a atmosfera. Nesse caso, a alavanca é a eficiência, não a circulação. É por isso que boa parte do Value Gap é, na prática, um argumento sobre energia e clima.
A conclusão coincide com a do relatório: reparar, reutilizar e remanufaturar preservam mais valor do que reciclar. Em química, a razão é simples. Quanto menos ligações e estruturas precisamos desfazer e refazer, menos energia e qualidade ficam pelo caminho.
O que ainda precisa ser demonstrado
Os € 25,4 trilhões são uma ordem de grandeza útil, não uma conta fechada. Os autores chamam o resultado de “estimativa inicial”, e o documento de metodologia ajuda a entender o que isso significa.
- Não é dinheiro à espera de ser recolhido. O relatório pede que os valores sejam lidos como “até”, não como resultado garantido. Custos de transição e efeitos sobre preços, comércio e emprego não foram modelados (p. 24).
- Não é uma fatia do PIB. Os custos-sombra nunca estiveram no PIB, e o relatório avisa que o Value Gap não é uma simples dedução dele (p. 16). O “€ 1 em € 3” é uma razão entre grandezas diferentes.
- Os dados são de 2021. O ano de referência e os preços são de 2021 (metodologia, p. 12), detalhe fácil de perder quando o número circula sozinho.
- Cerca de 30% do número depende de um preço atribuído. Sem os € 7,5 trilhões de custos-sombra, a estimativa cai para cerca de € 17,9 trilhões, ou 21,7% do PIB (cálculo meu). O custo-sombra tem razão de existir, mas depende fortemente do custo social do carbono adotado.
- O “±” não é uma margem de erro estatística. A metodologia admite que uma análise formal de sensibilidade e incerteza ainda não foi feita (p. 36). A faixa do capital fixo, por exemplo, corresponde à hipótese de que 25% a 50% da depreciação seria evitável, aplicada aos € 14 trilhões que separam o PIB do produto interno líquido (cálculo meu).
- O PDF tem erros de edição. Na versão 1.0, o quadro da p. 23 repete as parcelas de fim de vida, que somam € 9,9 trilhões, num item de € 5,2 trilhões. A tabela do apêndice (p. 36) traz “9,41%” em células que deveriam estar em milhões de euros. Vale citar os totais das p. 7 e 25.
Há também o outro lado: em vários pontos, a conta fica aquém da perda real. Acidificação, toxicidade, eutrofização, esgotamento de recursos e danos a ecossistemas ficam de fora (p. 17 e 24). Para um químico ambiental, essa lista é significativa, porque reúne boa parte do que medimos em água, solo e ar.
Como citar sem exagerar: “uma estimativa inicial, com dados de 2021, sugere que até € 25,4 trilhões por ano (± € 4,7 trilhões) em valor evitável se perdem no uso linear de materiais, incluindo custos ambientais e sociais fora do mercado”. Frases como “a economia circular renderia € 25 trilhões” vão além do que o estudo sustenta e se aproximam dos sinais de greenwashing que costumo apontar.
E a Amazônia nessa conta?
O relatório é global e não traz um número para o Brasil. Visto de Manaus, o interessante é o que fica fora dele, porque boa parte do que nos afeta está justamente nessas exclusões.
A floresta não entra. Danos ao capital natural e aos serviços ecossistêmicos estão fora do cálculo (p. 24). O relatório lembra que o PIB registra a perda de capital natural como zero, mas a nova métrica também ainda não a contabiliza. Os autores apontam essa ampliação como próximo passo (p. 28).
O rejeito da mineração também não. Resíduos de extração e do processamento inicial são excluídos por serem considerados, em grande parte, irrecuperáveis (p. 38). Pela definição, a lama vermelha do refino da bauxita tende a ficar nesse recorte. Ela sai do processo Bayer, no qual a bauxita é digerida com NaOH, e tem pH entre 10 e 13. A literatura aponta cerca de 175,5 milhões de toneladas por ano no mundo, com apenas 3 milhões reaproveitadas. No Pará, esse tema tem endereço: Barcarena.
O trabalho de quem coleta também não. O Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio em 2024, segundo a Recicla Latas, associação mantida por fabricantes e recicladores. É um resultado notável, sustentado em grande parte por catadores, muitos em situação vulnerável. A Ancat reclama que a coleta em si não é remunerada. Salário justo também fica fora do Value Gap (p. 24), embora o relatório cogite um futuro “Value Gap Social” (p. 28).
Esse é o ponto que eu levaria para o debate brasileiro: uma taxa alta de reciclagem mostra que o material voltou, mas não mostra como o valor foi dividido. O Plano Nacional de Economia Circular, aprovado em maio de 2025 com 71 ações em cinco eixos, inclui a valorização dos catadores e prevê planos setoriais. Falta saber quanto valor se perde aqui e em quais cadeias. Essa conta ainda está por fazer.
O que fazer com esse número
A parte mais útil do relatório está no diagnóstico por etapa e mecanismo, mais do que no total. Ele indica onde agir e quem pode agir.
- Empresas: mapear perdas de material e de valor ao longo da cadeia, da extração ao descarte. Depois, testar modelos como produto como serviço, locação de materiais e recolhimento pós-consumo. No debate sobre ESG, isso exige medição na origem: sem caracterizar o resíduo, não se sabe que valor ele ainda guarda.
- Financiadores: incluir reparabilidade, durabilidade e recuperabilidade na análise de crédito e de garantias. Bancos europeus já diferenciam hipotecas pelo desempenho energético dos imóveis, e o relatório sugere estender essa lógica.
- Governos: definir metas de uso de materiais, corrigir preços que escondem custos e usar a tributação. Entre os exemplos citados estão o IVA reduzido para reparos na União Europeia e o imposto britânico sobre embalagens plásticas, que não incide quando há conteúdo reciclado mínimo.
O relatório também faz um alerta que considero o mais importante: uma economia circular voltada apenas a manter materiais em uso pode reproduzir desigualdades. Antes de perguntar quanto reciclamos, vale perguntar o que estamos produzindo, para quem e a que custo.
Menos manchete, mais medição
O mérito do Value Gap é colocar o desperdício na língua de quem decide. Como diz Arnold Tukker, da Universidade de Leiden, no próprio relatório, o dinheiro ainda move a maioria das decisões, e toda nova abordagem precisa começar em algum lugar. Seu limite é ser uma primeira tentativa, com hipóteses fortes e dados de 2021. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e é assim que o número deve ser citado.
Para professores: peça à turma que calcule a economia de energia do alumínio reciclado a partir de 186 e 8,3 GJ/t. Depois, discuta por que a resposta para o PET não seria a mesma conta. A atividade liga reação química, energia e crítica de indicadores em uma aula só.
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Fontes
- Circle Economy, em colaboração com a Deloitte. The Circularity Gap Report 2026: The Value Gap. Amsterdã, versão 1.0, abr. 2026. Licença CC BY-SA 4.0.
- Circle Economy. The Value Gap: Methodology document, versão 1.0, dez. 2025.
- International Aluminium Institute. Aluminium recycling saves 95% of the energy needed for primary aluminium production, atualizado em 2024.
- Cardoso, S. A.; Silva, L. G. C.; Carvalho, A. S. C. Dois problemas, uma solução alternativa e um produto: tratamento do rejeito da lama vermelha. REUMAM, v. 10, n. 1, p. 199-216, 2025.
- Moura, B. F. Brasil reciclou 97,3% das latinhas de alumínio em 2024. Agência Brasil, via O Povo, 14 ago. 2025.
- ABC do ABC. Brasil aprova Plano Nacional de Economia Circular para um futuro sustentável, 14 maio 2025.
- Imagem de capa: símbolo de reciclagem, por Offiikart, Wikimedia Commons, CC0 (domínio público), aplicado sobre fundo claro.



