Em 2025, a água do Moosi Rani Sagar, um poço escalonado de Alwar, no Rajastão, transbordou sobre a calçada pela primeira vez em mais de 30 anos. Até 2021, o nível ali era irregular e a água, muito contaminada. A cena, contada em reportagem da BBC, resume um movimento que cresce no país: recuperar sistemas antigos de água para enfrentar uma crise muito atual.
A pergunta que interessa aqui é por que estruturas de séculos atrás ainda funcionam, e até onde. Parte da resposta está na química do solo.
Por que a Índia voltou aos sistemas antigos de água
A Índia tem 18% da população mundial e apenas 4% dos recursos de água doce. Também é o país que mais bombeia água subterrânea. Segundo a avaliação oficial de 2025, 730 das 6.762 unidades analisadas extraem mais água do que a recarga anual repõe.
A média nacional esconde os extremos. O país usa cerca de 60,6% do que pode extrair, e 73% das unidades são classificadas como seguras. Já o Punjab chega a 156% e o Rajastão, a 147%. O problema, portanto, é grave e muito desigual.
O clima agrava a conta. O ar mais quente seca o solo mais depressa, e chuvas mais intensas escorrem antes de conseguir infiltrar.
Baori, johad, tanka: o que faz cada estrutura
Os sistemas têm desenhos diferentes, mas o mesmo princípio: desacelerar a água para que ela tenha tempo de entrar no solo.
- Baori (poço escalonado): grandes estruturas de pedra, com degraus que descem até a água subterrânea. Foram construídas do século 7 a meados do século 19.
- Johad: dique simples de terra, em forma de meia-lua, que segura a enxurrada da monção enquanto ela infiltra.
- Tanka: reservatório subterrâneo cilíndrico que guarda a água da chuva.
- Kund e nadi: outras estruturas tradicionais de coleta e armazenamento, adaptadas às condições de cada região.

Há também uma vantagem física frente aos reservatórios abertos modernos, que perdem bastante água para o Sol. Ao levar a água para dentro do aquífero, os sistemas tradicionais a mantêm fresca e ao alcance de poços e bombas manuais próximos.
O que a química explica
Quando a água atravessa o solo, ela não passa apenas por um filtro. Ela passa por um reator natural, onde acontecem vários processos ao mesmo tempo:
- Filtração: os poros retêm partículas e parte dos microrganismos.
- Adsorção: argilas, óxidos de ferro e matéria orgânica fixam em sua superfície íons e moléculas dissolvidos.
- Biodegradação: microrganismos do solo consomem parte da matéria orgânica.
- Diluição: a água da chuva, pouco mineralizada, se mistura à água subterrânea e reduz a concentração de sais.
A evaporação ajuda a entender o outro lado da história. Quando a água evapora, os sais ficam. Por isso, guardar água longe do Sol não só reduz perdas, como também evita que ela se concentre.
Esse efeito já foi medido. Um estudo no sul do Rajastão usou isótopos de oxigênio e cloreto como traçadores e estimou que de 0 a 75% da água de poços próximos vinha da recarga por coleta de chuva. Os poços que recebiam essa recarga tinham qualidade melhor, com diferença significativa na condutividade elétrica, que indica a quantidade de sais dissolvidos, e no sulfato.
De “zona escura” a rio perene
Alwar é o caso mais conhecido. Mineração e desmatamento degradaram a bacia durante o período colonial, e os poços tubulares retiraram água sem repô-la. Em meados dos anos 1980, rios haviam secado e partes da região foram declaradas “zona escura”, quando a extração ultrapassa o que o aquífero consegue repor.

Em 1985, Rajendra Singh chegou a Alwar para abrir uma clínica, mas moradores de Gopalpura lhe disseram que a urgência era a água. Depois da monção de 1986, o johad restaurado encheu e poços secos havia anos voltaram a ter água. Entre 1994 e 2007, mais de 10 mil estruturas foram erguidas na região, beneficiando cerca de 250 aldeias e devolvendo fluxo perene a cinco rios sazonais.
A política pública acompanhou. Segundo dados citados pela BBC, a recarga por tanques, lagoas e obras de conservação subiu de 14 bilhões de metros cúbicos em 2017 para 25 bilhões em 2024. Um plano de 2020 prevê 14 milhões de estruturas de coleta e recarga.
Sistemas antigos de água não são solução mágica
Neste ponto, é preciso separar o que já foi demonstrado do que ainda depende de cada caso.
Recarga não é tratamento. Na análise de 15.259 amostras feita pelo órgão indiano de águas subterrâneas, 19,8% ultrapassaram o limite de nitrato, 9,04% o de fluoreto e 3,55% o de arsênio. A água que infiltra também pode levar fertilizante e esgoto para o aquífero. Não por acaso, a BBC mostra um kund usado hoje só para banho e um poço cuja água só é bebida depois de filtrada. Em Telangana, o Guardian relatou que apenas um poço restaurado fornecia água potável até fevereiro.
A geoquímica pode pregar peças. Em projetos de recarga artificial na Flórida, a água injetada dissolveu pirita por oxidação e liberou arsênio da rocha. É outro contexto, com outra técnica. A lição é que a composição do aquífero importa, e por isso é preciso monitorar.
O bombeamento pode anular a obra. Se os poços do entorno rebaixam o lençol abaixo do fundo do baori, restaurar a estrutura não basta. Também é preciso regular a extração.
A causa nem sempre é única. A chuva responde por cerca de 60% da recarga na Índia, e a monção de 2025 foi melhor que a de 2024. Um transbordamento isolado, portanto, não separa o efeito da restauração do efeito da chuva. Essa distinção exige séries longas de dados.
Sem manutenção, o sistema entope. O silte fecha os poros e reduz a infiltração. Daí a frase de Arun Krishnamurthy, da Environmentalist Foundation of India, à BBC: nenhum dinheiro ou tecnologia salva os poços escalonados sem “uma forte disciplina cívica”.
E o que Manaus tem a ver com isso?
Parece um problema distante de quem vive na maior bacia hidrográfica do mundo. Mas, em outubro de 2024, o Rio Negro chegou a 12,11 metros, o menor nível registrado até então no Porto de Manaus.
Sob a cidade está o Aquífero Alter do Chão, explorado por cerca de 27 mil poços, com forte rebaixamento do nível em algumas áreas. Pesquisadores também apontam esse rebaixamento na região do Distrito Industrial. A qualidade também preocupa: o mesmo trabalho da revista Geociências cita um levantamento de 2004 em que 60,5% de 120 poços de seis bairros tinham coliformes termotolerantes, associados à falta de esgoto, à proximidade de fossas e a poços mal construídos.
A lição não é copiar o baori. É a mesma lógica aplicada à nossa realidade: conservar áreas de infiltração, controlar os poços, cuidar dos igarapés e monitorar a água. Recarregar um aquífero com água contaminada só empurra o problema para baixo da terra. Por isso, o tratamento de efluentes industriais e o saneamento fazem parte dessa mesma conversa.
Água antiga, perguntas novas
Os sistemas indianos mostram que uma solução de baixo custo pode funcionar quando respeita o caminho da água e tem uma comunidade por trás. Mostram também que a ciência continua necessária: medir, comparar e dizer com clareza quando uma água serve para irrigar, para banhar ou para beber. Esse cuidado com a evidência é o mesmo que deve orientar os indicadores de água nos relatórios ESG.
Para professores: monte em sala uma coluna de areia e cascalho em uma garrafa PET e passe por ela água turva com sal. A água sai mais clara, mas um condutivímetro mostra que os sais continuam ali. Em poucos minutos, a turma vê a diferença entre água limpa na aparência e água de qualidade comprovada.
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Fontes
- BBC: India is turning to ancient water systems as modern ones run dry (21 ago. 2026)
- Avaliação de águas subterrâneas da Índia, 2025 (Vikaspedia)
- Kashmir Life: dados do Ministério Jal Shakti por estado
- Mongabay India: relatório de qualidade da água subterrânea
- Estudo sobre recarga artificial em poços do Rajastão (2009, registro AGRIS/FAO)
- Estudo sobre arsênio em recarga artificial na Flórida
- Harvard GSD: restauração de poços escalonados em Déli
- The Guardian, em resumo da Hindu Press International
- C4S: resumo do relatório de recarga de 2025
- Geociências (UNESP): Aquífero Alter do Chão em Manaus
- Portal Amazônia: Projeto Ieté, INPA/Samsung
- Rede Onda Digital: nível do Rio Negro em 2024
Imagem de destaque: O Moosi Rani Sagar, em Alwar, em foto publicada em 2018, antes da restauração iniciada em 2021. Foto: Vkvikas3 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



